5 minutos de vida

19.04.20

narrativas que (não) vemos
do que ouvimos
narrativas que (não) ouvimos
do que vemos

narratives that we (don’t) see
than we hear
narratives that we (don’t) hear
than we see

background sound – unload – Luís Vicente, Marco Franco, Marcelo dos Reis

08.04.20

lentos 6 minutos
excepção:
quem é lento, tem mais tempo

slow 6 minutes
exception:
who is slow, has more time

04.04.20

caminha em frente
se ao fundo chegar a dúvida
escolhe a que doer menos
ainda, são 4 pisos


go ahead  
if the bottom comes the doubt  
choose the one that hurts least
there are still 4 floors

03.04.20

Afagato
Afagar o gato
Afagar o gato 5 minutos
Afagar o gato que tens adiante
Afagar o que tens adiante 5 minutos
Afagar o que tens adiante mais 5 minutos
e por ai adiante

Fondlecat
Fondle the cat
Fondle the cat 5 minutes
Fondle the cat that lies ahead
Fondle what you have ahead 5 minutes
Fondle what you have ahead 5 minutes more
and on and on

02.04.20

Tempo que de tempo parece não ter tempo.
Já passaram 3 semanas, no entanto parece ter sido ontem, anteontem ou antes de anteontem. Poderia até ter sido em 1935 no tempo do Buñuel. Não sendo, e tão pouco comparável ao cinema, banais excertos de video filmados com um objecto usual e corriqueiro do nossos tempos tecnológicos. Por isso, aqui fica o convite, quem quiser filmar os seu 5 minutos de vida para uma partilha simples, será bem vindo!

Time seems to have no time.
It’s been 3 weeks, but it seems like yesterday, the day before yesterday or the day before the day before yesterday. It could even have been in 1935 at the time of Buñuel. Not being, nor so comparable to cinema, trivial excerpts from video filmed with a usual and common object of our technological times. So, here is the invitation, whoever wants to film their 5 minutes of life for a simple sharing, will be welcome!

31.03.20

Hoje pela manhã, fui ao cabeleireiro.
Era para ser radical, mas afastei esse impulso, até porque depois não existiria mais matéria prima para experimentar nesta caseira profissão. Cinco minutos de pura aprendizagem, rapidez e serviço impecável. Vou voltar e da próxima deixo gorjeta.
Em boa verdade, gosto e faço um pouco de tudo. Até porque é economicamente sustentável.
Como ser instável que sou, aproveito e incluo isso em processos de criação.
O hotelier, partindo do pressuposto que é atualmente mais uma fase da minha vida e não excluindo outras, tem-me possibilitado inúmeras explorações. Trolha, auxiliar de limpeza, cozinheira, artista, costureira, modelo, carpinteira, jardineira, agricultora, designer. Tento que o meu ego não subestime nenhuma delas, especialmente porque sou amadora em todas, até mesmo na que me licenciei. Obviamente tenho preferências, mas todas tem o seu tempo de ser apreciadas como presentes. É um presente se estar presente.

This morning, I went to the hairdresser.
It was supposed to be radical, but I pushed that impulse away, not least because later there would be no more raw material to experiment with in this homemade profession. Five minutes of pure learning, speed and impeccable service. I’ll be back and tip next time. In fact, I like and do a little bit of everything. Especially because it is economically sustainable.
As an unstable being that I am, I take advantage and include this in my creation process. The hotelier, assuming that it is currently one more phase of my life and not excluding others, has enabled me to explore countless times. Trowel, cleaning assistant, cook, artist, dressmaker, model, carpenter, gardener, farmer, designer. I try that my ego does not underestimate any of them, especially since I am an amateur in all of them, even the one I graduated from. Obviously I have preferences, but all of them have their time to be appreciated as gifts. It is a gift to be present.

28.03.20

Cinco minutos por dia, dá saúde e alegria. Um ditado popular, que serve para quase tudo que faça bem. Parar faz bem, é um frutífero alimento para a alma. Ver, a diante.

Five minutes a day gives health and joy. A popular saying, which fits almost anything you do well. Stopping is good, it is a fruitful food for the soul. See, onwards.

27.03.20

Ver crescer pão. É um fascinante acto de esperança. Quando miúda, ficava em suspenso a observar o forno, que fazia crescer coisas que sabia que as iria comer. Era um acto consumado, quase adquirido embora eu tivesse acesso a todos os processos de execução, a minha mãe sempre fez pão. E agora guardo na memória, especialmente o cheiro a pão quente pela casa. Não é diferente agora, mas obviamente mais consciente do processo e da vontade estimulante de me envolver com a comida, não somente do prazer de quando esta entra na boca. É um círculo completo, da terra até à terra. Este é sem dúvida, ver o pão a crescer, o momento mais iluminante e presente da execução do pão.

Watch bread grow. It is a fascinating act of hope. When I was a girl, I was suspended watching the oven, which made things grow that I knew would eat them. It was an accomplished act, almost acquired, although I had access to all the execution processes, my mother always made bread. And now I remember, especially the smell of hot bread around the house. It is no different now, but obviously more aware of the process and the stimulating desire to get involved with food, not just the pleasure when it enters the mouth. It is a complete circle, from earth to earth. This is undoubtedly seeing the bread growing, the most illuminating and present moment of the bread’s execution.

26.03.20

Por vezes nos locais mais inesperados, o tecto branco por exemplo, existem enredos poéticos como um teatro de luz e sombra. Quando presente e tendo disponibilidade mental as pequenas coisas tornam-se especiais. É este o tempo para nos cultivarmos, de teatro, cinema, literatura, música, arte. Temos que fermentar a nossa capacidade de criar e de absorver as coisas boas que nos fazem completos, humanos e singulares.

Sometimes in the most unexpected places, the white ceiling for example, there are poetic plots like a theater of light and shadow. When present and having mental availability the little things become special. This is the time to cultivate, theater, cinema, literature, music, art. We have to ferment our ability to create and absorb the good things that make us complete, human and unique.

24.03.20

Hoje, recomecei a ler “A lentidão” de Milan Kundera. Sito um pequeno trecho: “No nosso mundo, a ociosidade transformou-se em desocupação, o que é uma coisa muitíssimo diferente: o desocupado sente-se frustrado, aborrece-se, procura constantemente o movimento que lhe faz falta.” Isto aplica-se hoje, mais do que em 1995, quando foi editado. Hoje temos, imagens, imagens, imagens, produzidas em massa que preenchem este aborrecimento geral. O presente é anulado, na ansiedade de chegar a algum lado que não aquele em que nos encontramos. Não me aborreço. Faço antes uma reutilização do tempo até à matéria.

Today, I started to read “The slowness” by Milan Kundera. I quote a short excerpt: “In our world, idleness has become unemployment, which is a very different thing: the unemployed person feels frustrated, gets bored, constantly looking for the movement he needs.” This applies today, more than in 1995, when it was published. Today we have, images, images, images, mass produced that fill this general annoyance. The present is annulled, in the anxiety of reaching somewhere other than the one where we find ourselves. I don’t get upset. Rather, I reuse time to matter.

21.03.20

Primavera de 2020, marca uma mudança radical de comportamentos à escala do mundo. Um excerto da luz deste final do dia. Em 5 minutos, as superficies alteram-se em tonalidades diferentes. Uma mudança, à velocidade da luz.
Amanha, haverá outra luz.

Spring 2020 marks a radical change in behavior around the world. An excerpt from the light of this end of the day. In 5 minutes, the surfaces change in different shades. A change, at the speed of light.

19.03.20

Ontem fui ao hotelier regar o meu quintal, e a minha instalação viva que cresce à já quase 2 mês na montra. Portanto, 5 minutos de vida, fora de casa. Que luxo. A liberdade também se cria na nossa cabeça e parar, faz com que ela se manifeste.

Yesterday I went to the hotelier to water my backyard, and my live installation that has been growing for almost 2 months in the shop window. Therefore, 5 minutes of life, away from home. What a luxury. Freedom is also created in our head and stopping, makes it manifest.

18.03.20

Enquanto vivemos, devíamos ver, devíamos ouvir, devíamos sentir, devíamos de facto estar no presente. Coisas que achamos garantidas, no nosso tempo, no tempo dos outros. E tudo desaparece rapidamente, sem nos darmos conta. Há sempre mais 5 minutos depois de outros 5 minutos. Até breve.

While we live, we should see, we should hear, we should feel, we should actually be in the present. Things that we find guaranteed, in our time, in the time of others. And everything disappears quickly, without realizing it. There are always 5 more minutes after another 5 minutes. See you later.

15.03.20

É um exercício, reconhecer os simples prazeres! Ver, ouvir, saborear, cheirar, acções banais que se encaixam inconscientemente na nossa rotina. Este projecto, já em execução há um ano atrás, foi pensado para deles resultarem peças musicadas por pessoas que admiro. Vai naturalmente acontecer!
O título, nada tem a ver com a séria da Barbara Guimarães, ironia à parte!
São excertos banais, mas poéticos de 5 minutos cada.
De 5 em 5 minutos temos sempre mais vida. Isto é apenas um recomeço!

It is an exercise, recognizing the simple pleasures! See, hear, taste, smell, banal actions that unconsciously fit into our routine. This project, already underway a year ago, was designed to result in music pieces by people I admire. It will naturally happen!
The title has nothing to do with the Barbara Guimarães series, irony aside!
They are banal but poetic excerpts of 5 minutes each.

We have more life every 5 minutes. This is just a fresh start!

14.03.20

Este projecto tem quase um ano e é agora, neste momento, que me parece totalmente pertinente: parar para ver o que está à nossa frente, o presente.
É um processo simples mas que parece cair em segundo plano nas nossa vidas atarefadas que há bem pouco tempo nos mantinha ocupados em função do passado e do futuro. A simplicidade do presente. É disso que trata este “5 minutos de vida”.
Agora vimo-nos obrigados a parar por uma força maior e acreditando ou não, adoptamos a crença que temos de esperar para ver, ou então aproveitamos desde já o que existe à nossa frente. Esta espera reduz-nos à nossa insignificância e por isso teremos necessariamente de ampliar valores, que por força das circunstâncias, estavam adormecidos na nossa consciência.
Desde sexta feira 13 que estou em casa, sem qualquer sintoma, e por isso mesmo sinto-me apta para poder ajudar (com as devidas precauções) quem realmente precise. Tenho gasóleo no meu polinho, posso levar comida ou bens necessários a alguém que precise urgentemente deles.
Serve este “5 minutos de vida” – que sem obrigações farei todos os dias, nesta série que inicío dia 14 de março – para absorver esta nova forma frugal de viver.
A poesia também alimenta.

This project is almost a year old and it is now, at this moment, that seems to me totally pertinent: stop to see what is ahead of us, the present.
It is a simple process, but one that seems to fall second in our busy lives that recently kept us busy due to the past and the future. The simplicity of the present. That’s what this “5 minutes of life” is about.
Now we are forced to stop by a force majeure and, believing it or not, we adopt the belief that we have to wait and see, or else we take advantage of what is ahead of us. This waiting reduces us to our insignificance and for that reason we will necessarily have to expand values, that due to the circumstances, were dormant in our conscience.

Since Friday the 13th I have been at home, without any symptoms, and for that reason I feel able to help (with the necessary precautions) those who really need it. I have diesel on my lil’polo, I can take food or necessary goods to someone who needs them urgently.
It serves this “5 minutes of life” – which I will do without obligations every day, in this series that I start on March 14th – to absorb this new frugal way of living. Poetry also feeds.